Auxílio-doença por vício em jogos dispara com as bets. Entenda quando o INSS pode conceder o benefício e onde buscar ajuda
Você decidiu fazer uma aposta de R$ 20. Parecia pouco dinheiro, mas depois de perder o valor, você resolveu apostar mais R$ 20 para tentar recuperar e perdeu novamente.
Depois de perder os R$ 40, você decidiu arriscar tudo, apostou R$ 60 e ganhou. Aí chegou à conclusão que encontrou uma forma de melhorar sua renda. Dobrou a aposta e perdeu tudo.
É assim que se inicia um ciclo vicioso que pode levar muita gente à derrocada financeira e moral, deixando de ser uma atividade ocasional e passando a comprometer o orçamento, os relacionamentos e até a capacidade de trabalhar.
Uma investigação publicada pelo Intercept Brasil em junho de 2025 mostrou que o número mensal de auxílios-doença concedidos por vício em jogos aumentou mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025. Ao todo, foram 276 benefícios concedidos nesse intervalo.
O problema também aparece no bolso dos brasileiros. Um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), divulgado em 2026, estimou que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets durante o ano de 2025.
Neste artigo, você vai entender o que caracteriza o transtorno do jogo, como ele pode afetar o trabalho e a vida financeira e quais caminhos existem para interromper as apostas e cuidar das dívidas. Vem com a gente!
O que você precisa saber
- Auxílios-doença mensais por vício em jogos cresceram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, com 276 benefícios concedidos.
- Segundo o Comsefaz, as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, numa estimativa de ordem de grandeza.
- O benefício exige incapacidade para o trabalho por mais de 15 dias e requisitos do INSS; diagnóstico ou dívidas não garantem o afastamento.
- O SUS oferece atendimento gratuito em UBS, CAPS e teleatendimento, e a autoexclusão do Ministério da Fazenda bloqueia as bets autorizadas.
- Renegociar dívidas ajuda a reorganizar as contas, mas não substitui o tratamento quando existe transtorno do jogo.
Auxílios-doença por vício em jogos cresceram mais de 2.300%
Antes da popularização das bets, os benefícios previdenciários concedidos especificamente por jogo patológico eram pouco frequentes.
Segundo os dados do INSS obtidos pelo Intercept Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação, entre 2015 e 2022 a média anual não ultrapassou 11 concessões.
No entanto, a partir de 2023, os registros começaram a aumentar e, no segundo semestre de 2024, passaram a alcançar frequentemente a casa das duas dezenas por mês.
Entre junho de 2023 e abril de 2025, foram 276 benefícios concedidos, período em que a quantidade mensal cresceu mais de 2.300%.
É importante destacar que esse número representa o crescimento das concessões mensais identificadas na investigação, e não de um aumento de 2.300% no número total de pessoas com transtorno do jogo no Brasil.
Ou seja, os 276 benefícios não representam todos os brasileiros que enfrentam problemas com apostas, mas apenas aqueles que obtiveram o benefício por conta do vício em jogos.
A investigação ouviu especialistas que relataram:
- dificuldades de diagnóstico;
- desconhecimento sobre a possibilidade de solicitar o benefício;
- situações em que o afastamento é registrado por outra condição de saúde mental.
Por exemplo, há várias situações em que o beneficiário é afastado por condições como depressão, sem considerar que o jogo é o principal motivo para aquele transtorno.
Assim sendo, os registros previdenciários mostram uma parte do problema, mas não permitem medir, sozinhos, quantas pessoas convivem com o transtorno.
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Como o vício em apostas pode impedir uma pessoa de trabalhar?
O chamado jogo patológico, também conhecido como transtorno do jogo ou ludopatia, é uma condição de saúde reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ela é caracterizada pela perda de controle sobre as apostas, pela importância crescente que o jogo passa a ocupar na vida e pela continuidade desse comportamento mesmo diante de consequências negativas.
Isso ajuda a explicar por que o problema pode ultrapassar as perdas financeiras.
Imagine uma pessoa que começa a apostar durante o intervalo do trabalho. Aos poucos, passa a acompanhar os resultados o tempo inteiro, perde horas de sono e utiliza parte do expediente para tentar recuperar o dinheiro perdido.
Com o tempo, a preocupação constante com as apostas pode interferir na concentração, no cumprimento das atividades e nas relações profissionais.
A reportagem do Intercept apresentou o caso de um gerente de banco que perdeu as reservas financeiras da família, precisou de tratamento e chegou a ser afastado do trabalho pelo INSS.
Sua história mostra como o transtorno pode atingir diferentes áreas da vida, incluindo uma carreira profissional já estabelecida.
Quem tem vício em jogos pode receber auxílio-doença?
Qualquer pessoa que esteja viciada em jogos pode receber o auxílio-doença desde que cumpra os requisitos previdenciários e comprove que a condição provoca incapacidade temporária para o trabalho ou para sua atividade habitual.
O benefício é chamado oficialmente de auxílio por incapacidade temporária, embora ainda seja conhecido como auxílio-doença.
Segundo o INSS, sua concessão depende da comprovação de incapacidade por mais de 15 dias consecutivos, além do cumprimento dos requisitos relacionados à qualidade de segurado e à carência, quando exigida.
Em regra, são necessárias 12 contribuições mensais, mas existem hipóteses legais de dispensa dessa exigência, cuja aplicação precisa ser avaliada em cada caso.
Portanto, o diagnóstico de transtorno do jogo não garante automaticamente o pagamento do benefício. O INSS precisa avaliar se os efeitos da doença realmente impedem a pessoa de exercer suas atividades profissionais durante determinado período.
Da mesma forma, o fato de alguém ter perdido muito dinheiro ou acumulado dívidas não é suficiente para assegurar o afastamento. O benefício existe para situações de incapacidade laboral, não para compensar prejuízos financeiros provocados pelas apostas.
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Como solicitar o benefício?
Quem está em tratamento e recebeu orientação médica para se afastar do trabalho pode iniciar a solicitação pelo site ou aplicativo Meu INSS. O procedimento começa com o acesso à conta Gov.br e a seleção da opção de benefício por incapacidade.
É necessário apresentar documentação médica que permita avaliar a condição de saúde e o período estimado de afastamento. Dependendo das características do pedido, o INSS poderá realizar a análise documental pelo Atestmed ou exigir perícia presencial.
O atestado deve conter informações como identificação do segurado, descrição da doença ou CID, data de emissão, tempo estimado de repouso e identificação do profissional responsável. Laudos e exames complementares também podem ser apresentados.
Como identificar quando as apostas deixaram de ser diversão?
Nem sempre a gravidade do problema aparece primeiro no valor perdido. Às vezes, ela se manifesta na dificuldade de parar.
Uma pessoa pode começar utilizando valores pequenos e, mesmo assim, desenvolver uma relação problemática com as apostas quando passa a organizar sua rotina em função dos jogos ou sente necessidade constante de recuperar perdas.
O Ministério da Saúde aponta alguns sinais que merecem atenção:
- Apostar por mais tempo ou gastar mais dinheiro do que havia planejado.
- Tentar diminuir ou interromper as apostas sem conseguir.
- Voltar a jogar para recuperar valores perdidos.
- Esconder gastos ou mentir para familiares sobre o dinheiro utilizado.
- Apresentar alterações no sono, no humor ou na rotina por causa das apostas.
- Comprometer despesas essenciais, relacionamentos ou atividades profissionais para continuar jogando.
Esses comportamentos não substituem uma avaliação clínica. Entretanto, quando começam a aparecer, procurar orientação profissional pode ajudar a evitar que os prejuízos se agravem.
Também é importante evitar tratar o transtorno como simples falta de disciplina. Quando existe perda persistente de controle, a situação envolve uma questão de saúde que pode precisar de acompanhamento especializado.
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Brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões com bets em 2025
O crescimento dos afastamentos por jogo patológico revela uma dimensão do problema. Outra aparece na quantidade de dinheiro que deixa o orçamento das famílias.
A terceira atualização do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, produzida pelo Comsefaz e pelo Centro Internacional Celso Furtado, estimou que a saída líquida de recursos das famílias em direção às bets chegou a R$ 62,5 bilhões em 2025.
O levantamento utilizou dados de transferências via Pix do Banco Central e um modelo estatístico para estimar a movimentação adicional atribuível ao setor de apostas. O resultado não representa todo o dinheiro apostado.
Ele estima a diferença entre os recursos enviados pelas famílias e os valores que retornaram, descontado o comportamento que seria esperado para as transações analisadas na ausência da expansão das bets.
Os autores também ressaltam que se trata de uma estimativa de ordem de grandeza, e não de uma medição causal exata.
Para entender como isso aparece na vida cotidiana, pense em alguém que utiliza R$ 500 do salário para apostar, perde e depois retira outros R$ 500 da reserva para tentar recuperar o prejuízo.
Se esse comportamento se repete, o problema não está apenas no dinheiro que sai da conta. O valor perdido poderia ser utilizado para pagar uma parcela, comprar alimentos, formar uma reserva ou simplesmente manter o orçamento equilibrado.
Quando as apostas passam a disputar espaço com essas despesas, até uma pessoa que não tinha dívidas anteriormente pode começar a enfrentar dificuldades financeiras.
Por que as perdas com apostas nem sempre aparecem nas estatísticas de crédito?
Esse é um ponto importante para compreender o impacto financeiro das bets. Uma aposta paga diretamente com o saldo disponível na conta não é, por si só, um empréstimo ou financiamento.
Portanto, não entra automaticamente nas estatísticas que medem o saldo de crédito contratado pelos consumidores. No entanto, o dinheiro perdido pode provocar consequências que aparecem posteriormente nesses indicadores.
Imagine que uma pessoa utilize parte do salário nas apostas e, quando chega o vencimento do cartão, já não tenha recursos suficientes para pagar a fatura. Para cobrir a diferença, ela pode recorrer ao cheque especial, ao rotativo ou a um empréstimo.
Nesse momento, a perda com as apostas começa a se transformar também em uma operação de crédito. Se a situação continuar, a pessoa pode acumular parcelas, atrasar pagamentos e até ter o nome negativado.
Ainda assim, os dados agregados de crédito não permitem identificar automaticamente quanto de uma dívida foi provocado por apostas, desemprego, redução de renda ou outras circunstâncias.
Por isso, os números sobre perdas nas bets e os indicadores tradicionais de endividamento precisam ser analisados em conjunto, mas não devem ser confundidos.
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Por que tentar recuperar o dinheiro perdido pode aumentar a dívida?
Uma das situações mais delicadas acontece quando a pessoa passa a enxergar as apostas como uma maneira de recuperar o próprio prejuízo.
Se perdeu R$ 200, acredita que uma nova aposta poderá devolver aquele dinheiro. Caso perca novamente, o valor necessário para compensar as perdas aumenta, e a pressão para continuar jogando também pode crescer.
Esse comportamento é conhecido como tentativa de recuperar perdas e aparece entre os sinais utilizados por profissionais de saúde para identificar uma relação problemática com o jogo.
O risco financeiro se torna ainda maior quando o consumidor começa a utilizar dinheiro emprestado para apostar. Um empréstimo de R$ 2 mil, por exemplo, não deixa de existir se o valor for perdido.
A pessoa continuará responsável pelo pagamento das parcelas e dos encargos contratados, mesmo sem ter conseguido recuperar o dinheiro. Se utilizar outro empréstimo para pagar o primeiro, poderá entrar em uma sequência de dívidas impagável.
É por isso que renegociar uma pendência sem interromper o comportamento que continua produzindo novas perdas pode não resolver a situação. A dívida e o transtorno do jogo precisam ser tratados como problemas relacionados, mas que exigem cuidados diferentes.
Como parar de apostar e buscar tratamento gratuito?
Se as apostas estão prejudicando sua rotina, seu trabalho ou sua vida financeira, você não precisa esperar que a situação chegue ao limite para procurar ajuda.
O Sistema Único de Saúde oferece atendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, incluindo acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e acompanhamento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde também passou a oferecer teleatendimento em saúde mental para apostadores e familiares, com capacidade anunciada de até 100 mil atendimentos mensais.
O acesso pode começar pelo aplicativo Meu SUS Digital. Na área de miniaplicativos, procure a opção relacionada a problemas com jogos de apostas e responda ao autoteste.
Dependendo do resultado, o sistema apresenta orientações ou encaminha para o atendimento remoto. O autoteste não fornece um diagnóstico. Ele serve para ajudar a identificar sinais de risco e orientar a busca por acompanhamento profissional.
Familiares também podem procurar esses serviços, especialmente quando precisam de orientação para lidar com os efeitos das apostas dentro de casa.
Existe alguma maneira de bloquear o acesso às bets?
O Ministério da Fazenda disponibiliza uma Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite solicitar voluntariamente o bloqueio do acesso às casas de apostas autorizadas pelo governo federal.
A ferramenta também impede novos cadastros com o CPF informado e interrompe o envio de publicidade direcionada pelas operadoras abrangidas.
O serviço é gratuito, exige autenticação pela conta Gov.br de nível prata ou ouro e permite escolher períodos de bloqueio determinados ou indeterminados.
Após a solicitação, as empresas autorizadas têm até 72 horas para efetivar o bloqueio. É importante lembrar que a ferramenta não alcança automaticamente plataformas clandestinas nem substitui o tratamento de saúde.
Para quem está enfrentando dificuldades para parar, a autoexclusão pode funcionar como uma medida complementar ao acompanhamento profissional e ao apoio de pessoas de confiança.
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O que fazer quando as apostas já provocaram dívidas?
Depois de interromper ou restringir o acesso às apostas e buscar orientação de saúde, o próximo desafio pode ser organizar os compromissos financeiros acumulados.
O primeiro passo é descobrir o tamanho real das pendências. Vale consultar as faturas, verificar empréstimos contratados, identificar contas em atraso e conferir quanto da renda ainda está disponível para despesas essenciais.
Se houver dívidas com diferentes instituições, reúna os valores e as condições de cada contrato antes de decidir como negociar. O melhor caminho para esse caso é o site ou App da Acordo Certo.
Por lá, você pode consultar gratuitamente seu CPF e verificar se existem ofertas de renegociação disponíveis com empresas parceiras.
As condições dependem de cada credor e precisam ser avaliadas conforme o orçamento. A negociação pode ajudar a reorganizar os débitos, mas não substitui o acompanhamento necessário quando existe transtorno do jogo.





